Teatro e instalação trazem o Sertão de Guimarães Rosa para a rotunda do CCBB

Uma experiência do romance. A expressão, utilizada pela diretora e idealizadora do projeto, condiz com a sensação que temos ao experimentar esta leitura cênica do clássico brasileiro de 1956. Todas as falas do espetáculo são do autor do livro. Além disso, o público recebe fones de ouvidos, o que amplia a percepção sonora do ambiente, cujo cenário já encanta o olhar.

Ao centro, encimado pela cúpula do prédio do Centro Cultural Banco do Brasil, está a instalação física que faz-se de espaço cênico e observatório, contornando o espaço de atuação e permitindo a miragem dxs espectadorxs. Para realizar um espetáculo dessas dimensões “carece de ter coragem. Carece de ter muita coragem”. A frase corajosa do Rosa, dita em cena, adjetiva bem esta equipe grande de atrizes, atores, diretora, técnicxs, colaboradorxs, produtorxs e uma dezena de pessoas responsáveis pela execução e apoio dessa empreitada artística.

Nos tempos que vivemos, faz-se necessário e fundamental aplaudir artistas e instituições que seguem proporcionando que a arte permaneça em nossa cidade, em nosso país. No caderno do programa da peça – um jornal-diário de ensaio –, a equipe escreveu: “Não se faz o Grande Sertão pela metade. Ou estamos ou não estamos.”

Ao adentarmos, durante 2h30, o Sertão de Bia Lessa (de todxs), somos convidadxs a sentir o sertão, a sê-lo, pois “o sertão é dentro da gente”. Sairemos de lá com perplexidade, emoção aflorada e mergulho profundo dentro e fora de nós. Através de um livro como esse, podemos conhecer e entender mais nosso frágil-forte país. “Viver é negócio muito perigoso”. E “o teatro é apenas o meio que utilizamos para estudar a vida”, diz a equipe, no caderno.

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Fotos: Divulgação. (Não pode filmar ou fotografar o espetáculo sem autorização)

Não é a primeira vez que Bia traz para o palco uma obra litarária. Sua estreia no teatro foi com uma adaptação de Graciliano Ramos, em 1983, e seguiu-se com outras, como de Virginia Woolf e do próprio Sertão de Guimarães – para a inauguração do Museu da Língua Portuguesa, que encontra-se atualmente em obras –, em São Paulo. A atual montagem passou pela estreia na capital paulista com casa lotada durante toda a temporada, ganhado o prêmio APCA como melhor direção, além de indicações ao Prêmio Shell de Teatro.

O grande elenco, afinado, faz-se de animal e paisagem. Bando que voa, manada furiosa, farfalhar, batalha, travessia, velório e procissão humana. A pessoa em cena como bicho-gente. E as respirações em nossos ouvidos, aproximando-nos daquele habitat ora acolhedor, ora hostil. Com os fones, parece que estamos em um cinema “multi”-D, feito um filme que estimula todos os sentidos. O figurino é também texto, transmuta sua função e é parte essencial do espetáculo. Cenário e bonecos estão abertos à visitação do
público.

Morte e vida, amor, descoberta e dor. O jagunço Riobaldo (Caio Blat em excelente presença) atravessa o sertão diante de nossos olhos, faz a paz, faz a guerra, faz amor. E apaixona-se por Diadorim (Luíza Lemmertz), esta figura tão importante e um pouco velada em nossa história literária. Quem é Diadorim? O que temos de Riobaldo e Diadorim dentro de nós? Sem trazer spoiler a quem desconhece x personagem, há mistério e paixão em seus olhos. “Diadorim é a minha neblina”, diz Riobaldo.

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Amigos de infância – em trechos de beleza lúdica recordados pelo narrador (Riobaldo/Caio) e revividos em cena por outrx atorxs/atriz (trazendo a talvez neutralidade dos gêneros) –, xs protagonistas se encontram na luta e conhecem o amor mais puro: “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem o perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. O torpor, as confusões internas vindas de uma sociedade preconceituosa, a aceitação e o desejo de entrega vividos durante toda a saga por Riobaldo levantam a questão tão pertinente e urgente até hoje. A de não poder ser quem se é por medo da
violência e intolerância do outro.

Dentre as muitas falas em cena (todas as marcadas em itálico neste texto são de Guimarães Rosa e presentes no espetáculo), algumas já conhecidas, outras saltam do livro e nos capturam em emoção, como quando Riobaldo nos diz que “homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia deles for enorme. Aparecia que nós dois já estávamos cavalhando lado a lado, par a par, a vai-a- vida inteira. Que: coragem – é o que o coração bate; se não, bate falso”. Rio-baldo, um caminho d’água agreste, baldio? Dia-dor- im, e seu banhar sempre sozinho, sempre na escuridão segura da noite. De dia a dor?

É difícil não ser tomadx pela atmosfera da linguagem tão elaborada e tão íntima que se apresenta. É épica e é conversa. Grito e sussurro. Choro e eco. Um longo e fundamental espetáculo em cartaz na cidade do Rio de Janeiro. “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”. Mas, se bonequinhx de crítica eu fosse, marcaria a nova opção: De chorar e aplaudir de pé.

Ps: Agora, o visitante do CCBB poderá ampliar a experiência com realidade virtual, com uso de óculos para ver um vídeo com trechos da peça em 360°, colocando o espectador no meio da instalação onde o espetáculo é encenado. Essa atividade ocorre fora dos horários da peça, até 31 de março, das 12h às 18h, no foyer, de graça.

Por Aline Miranda

#FicaaDica: A procura de ingressos está grande. A venda principal é feita pelo site eventim.com.br ou pelo aplicativo “Eventim”. As vendas abrem a cada segunda-feira para ingressos desta semana. No dia das apresentações, há uma pequena cota de ingressos que são vendidos a partir das 9h, na bilheteria do CCBB.
Além disso, no dia de espetáculo há uma fila de espera. No dia que fomos, todas as pessoas da fila entraram; já em outros dias, não houve nenhuma desistência. É a opção mais incerta. Mas, visitar o CCBB é sempre válido, com suas exposições, a própria instalação da peça, e a Confeitaria Colombo (que oferece desconto para clientes do Banco do Brasil, falamos sobre isso no post aqui).

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O que: Espetáculo Grande Sertão: Veredas
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB: Rua Primeiro de Março, 66, Centro (Praça XV)
Quando: Quarta a domingo (até 31/03), às 21h (2h30 de duração)
Quanto: R$20 inteira / R$10 meia e clientes BB
Classificação indicativa: 18 anos
Mais infos: (21) 3808-2020, culturabancodobrasil.com.br/portal/grande-sertao- veredas/
instagram.com/grandesertaoveredas

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